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O presidiário que mudou a lei
Oséas de Campos, pastor evangélico
O Brasil tem 575 mil advogados e grandes juristas, mas foi
uma pessoa sem curso superior que conseguiu derrubar o item
mais importante da Lei dos Crimes Hediondos. O pastor evangélico
Oséas de Campos, de 47 anos, condenado por atentado
violento ao pudor, fez com que o Supremo Tribunal Federal
(STF) reconhecesse anteontem o direito dos presos por crimes
graves passarem do regime fechado para o semi-aberto e o aberto.
Campos, em liberdade condicional desde
agosto de 2005, disse que a decisão vai devolver a
esperança aos presos e acabar com as rebeliões.
"A única coisa que a Justiça cumpre nesse
país com relação ao Direito Penal é
a ordem de prisão. Depois, é só problema."
Por que o senhor começou a estudar
Direito Penal na cadeia?
Porque eu não tinha advogado. No Brasil, você
tem que se virar. Se não tivesse feito isso, estaria
cumprindo pena até hoje. Comprei uma Constituição
com um maço de cigarro. Pagava o lixeiro da cadeia
com maços para ele me trazer livros de jurisprudência
criminal que foram jogados fora.
Há vários recursos contra
a lei com argumentos como os seus que não foram longe.
Por quê?
Foi a unção de Deus. Pedi para Ele me mostrar
onde estava o erro e Ele mostrou: "Na Constituição,
artigo 5º, versículo, quer dizer, inciso 46 -
toda pena tem que ser individualizada."
O senhor acha que tinha de passar por
essa provação?
Acho que sim, porque eu era preconceituoso. Era igual à
sociedade. Via um ladrão sendo preso e falava que ele
era vagabundo e tinha que matar. Fazia igual a esse Paulo
Maluf que disse que lugar de ladrão é na cadeia
- tanto é que ele foi parar lá. A Bíblia
diz: "Não julgue para não ser julgado."
E eu condenava. De repente, fui parar no meio deles.
O senhor teve medo na prisão?
Fiquei mais de quatro anos preso, com bandidos perigosos.
Mas não tive medo, eles me respeitaram, foram uma família
para mim.
Condenados por crimes sexuais geralmente
sofrem retaliação.
Comigo, não. Eu sou inocente. Eles falaram: "Pastor,
o papel aceita tudo." Se não gosto do seu pai,
posso dar um dinheiro para qualquer menina dizer que seu pai
se esfregou nela. É o suficiente para ele ser condenado.
O que o senhor tem a dizer para os presos
que terão o benefício?
Espero que se arrependam (do crime). Não vão
poder falar que continuam no crime porque ninguém deu
oportunidade. A Justiça está dando oportunidade.
O Supremo devolveu uma coisa que está na Constituição.
Como sua família reagiu à
acusação, em 2000?
Minha mulher não acreditou. Ela me conhece. Faz 20
anos que viajo pelo Brasil inteiro pregando e cantando música
gospel. De repente eu cismo em ser molestador de criança?
Não. Mas como a condenação inicial foi
18 anos, não dava para ela agüentar e nos separamos.
Depois, eu recorri e o Tribunal de Justiça reduziu
a pena para 12 anos e o Superior Tribunal de Justiça,
para 8 anos e 2 meses.
E seus filhos?
Meus filhos iam me visitar na cadeia, mas era ruim vê-los
naquele lugar e pedi para minha mulher não levá-los
mais. Um deles acabou se envolvendo com drogas, tive de orar
muito. Ele era muito apegado a mim. Foi pego por porte de
drogas, mas o promotor recorreu dizendo que ele é traficante.
Ele responde ao processo em liberdade.
O senhor enfrenta muito preconceito?
Tem uns pastores fariseus que, infelizmente... Nessa parte,
eu louvo a Igreja Católica. Quando padres têm
problema com pedofilia, eles ajudam aquela pessoa, dão
tratamento, porque isso é doença. Enquanto o
pastor está firme, tudo bem, mas, quando acontece um
problema, a maioria vira as costas.
-Laura Diniz
Fonte:http://www.estado.com.br/editorias/2006/02/25/cid47142.xml
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